Por que creio no batismo infantil

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Fui criado na tradição batista desde pequeno, e quando tive meu primeiro contato com a tradição reformada, estranhei o fato de os irmãos presbiterianos batizarem bebês. Ao estudar sobre o assunto, aprendi que a doutrina presbiteriana do batismo infantil era fundamentada na sua compreensão das alianças bíblicas, a famosa Teologia do Pacto. Mas descobri também que os batistas tinham a sua própria teologia pactual, e abracei essa teologia durante alguns anos. Recentemente, porém, depois de um bom tempo de estudo, leituras e boas conversas, mudei de opinião e passei a reconhecer o batismo infantil como prática bíblica. Esse texto é um pequeno resumo dos pontos que me levaram a essa conclusão.

Primeiramente, precisamos reconhecer que os textos bíblicos que falam diretamente sobre o batismo não resolvem a questão. Temos relatos de batismos de indivíduos adultos que creram no evangelho (At 2.41; 8.12, 36–38; 9.18–20; 19.4–5), mas também exemplos de batismos de famílias inteiras (At 16.14–15, 31; 18.8; 1Co 1.16). Os apóstolos associam o batismo à união pessoal do indivíduo com Cristo (Rm 6.1–4; Gl 3.27), mas também fazem referência a eventos como o dilúvio e a travessia do mar vermelho (1 Co 10.1–5; 1Pe 3.20–21), em que famílias inteiras passaram pelas águas, incluindo alguns que posteriormente foram condenados. Não temos exemplos claros de filhos de crentes sendo batizados na infância, mas também não há relatos de filhos aguardando para serem batizados somente após sua profissão de fé quando mais velhos. Se não há uma instrução clara, precisamos nos perguntar o que seria mais natural para o público original dos tempos bíblicos: incluir ou não os filhos no batismo?

Assim, a pergunta “quem deve ser batizado?” tem como pano de fundo uma pergunta mais fundamental: “quem faz parte do povo de Deus na nova aliança?” — afinal, o batismo é um sinal de participação no povo de Deus, a igreja. Alguns irmãos entendem que a igreja é (ou deve ser) composta apenas por crentes regenerados, e por isso se empenham em praticar o credobatismo (o batismo de crentes somente). Outros entendem que a igreja, assim como Israel no Antigo Testamento, inclui também os filhos dos crentes, e portanto praticam o pedobatismo (o batismo de infantes). Assim, podemos dizer que a raiz do debate está na relação entre Israel e a igreja, e, de maneira mais ampla, na relação entre as alianças de Deus no Antigo e Novo Testamentos. Isso nos leva ao primeiro ponto.

A CONTINUIDADE DA ALIANÇA

O pedobatismo reformado tem como base o ensino de que a nova aliança em Jesus é uma continuação da aliança que Deus fez com Abraão , quando prometeu a ele descendência, terra e bênção (Gn 12, 15, 17). A promessa de que em Abraão todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gn 12.3) correspondia ao próprio evangelho (Gl 3.8) e era fundamentalmente sobre Jesus (v. 15). A salvação em Cristo é a bênção de Abraão chegando a nós (v. 14), de modo que somos filhos de Abraão e herdeiros da mesma promessa (v. 29). Fomos incluídos no mesmo povo e na mesma promessa que os israelitas (Ef 2.11–13; 3.6) e enxertados na mesma oliveira da qual eles faziam parte (Rm 11.17–24). Por isso os cristãos são chamados de verdadeiros judeus (Rm 2.29), filhos de Abraão (Rm 4.13–18; Gl 3.29), Israel de Deus (Gl 6.16), verdadeira circuncisão (Fp 3.3), povo especial de Deus (Tt 2.14) e nação santa (1Pe 2.9).

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Isso significa que a passagem do Antigo Testamento para o Novo Testamento consiste em uma expansão das mesmas bênçãos e do mesmo povo: a terra prometida se estende para incluir toda a criação restaurada (Rm 4.13; Hb 11.9–10, 16), e a descendência numerosa passa a incluir pessoas de todas as nações. Se a expansão do conceito de “terra prometida” não exclui o seu aspecto material (afinal, teremos novos céus e nova terra), a expansão da noção de “descendência” também não deve ser puramente espiritual. O material e o espiritual sempre estiveram entrelaçados nas alianças bíblicas, conduzidos por uma promessa central: “eu serei o vosso Deus” (Gn 17.7; Ex 6.7; Lv 26.12; Jr 17.23; 31.34; 32.38; Ez 37.27; 2Co 6.16; Hb 8.12). A aliança abraâmica não dizia respeito apenas a bênçãos terrenas que apontavam para as bênçãos espirituais da nova aliança em Cristo. Ela tinha como sua própria substância a comunhão com Deus por meio de Jesus. Em outras palavras, a aliança abraâmica e a nova aliança são diferentes etapas de um mesmo relacionamento entre Deus e o seu povo.

A MEMBRESIA DA ALIANÇA

Esse relacionamento de aliança sempre incluiu os filhos dos participantes (Gn 17.7), e quando chegamos à nova aliança o padrão parece ser reafirmado: a nova aliança foi profetizada como bênção para descendências (Is 44.3; 54.10–13; 59.20–21; Jr 31.36–37; 32.37–40; Ez 37.25–27); Pedro anunciou a promessa “para vós e vossos filhos” (At 2.39); o batismo foi dado a famílias inteiras (At 16.14–15, 31; 18.8; 1Co 1.16); Paulo tratou os filhos de um cristão como santos (1Co 7.14) e os incluiu nas orientações à igreja, para obedecerem no Senhor e serem criados na instrução do Senhor (Ef 6.1–4; Cl 3.20; cf. Dt 6.7). Embora esses textos não mostrem explicitamente bebês sendo batizados, eles indicam que Deus continua trabalhando por meio de famílias ao longo das gerações (Ex 20.6; Dt 7.9; Sl 103.17; Lc 1.50). A salvação dos filhos não é garantida, mas eles são, em algum aspecto, incluídos na comunidade, privilégios e obrigações do pacto.

Assim, embora a igreja invisível (conforme vista somente por Deus) seja formada somente por crentes regenerados, a igreja visível (conforme nós a vemos na história) inclui também alguns não convertidos. Assim como era em Israel (Rm 9.6), na igreja há pessoas que têm alguma ligação visível e pública com Cristo e seu povo, mas não são necessariamente salvas (Jo 15.5–6; Rm 11.21–22; 1Co 10.1–6; Hb 2.1–4; 3.7–4.11; 6.4–8; 10.26–31). São tratados como membros da aliança e do povo de Deus, legalmente sujeitos aos compromissos do pacto e, portanto, julgados com maior rigor (Hb 10.30; 1Pe 4.17). Na realidade, credobatistas e pedobatistas reconhecem essa distinção entre a igreja invisível e a igreja visível. A diferença é que, para os credobatistas, os descrentes na igreja visível não são membros do pacto em nenhum aspecto; já os pedobatistas creem que os descrentes na igreja são membros do pacto em seu aspecto exterior.

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E quanto à profecia de que na nova aliança “todos conheceriam a Deus” (Jr 31.31-34)? Credobatistas costumam apelar para esse texto em sua defesa de uma comunidade pactual formada somente por crentes regenerados. Três pontos devem ser considerados a respeito deste texto:

  1. A nova aliança é colocada em contraste com a aliança do monte Sinai, feita após o Êxodo (v.32), e não com a aliança de Abraão (cf. Gl 3.15–29), então a base do argumento pedobatista (que está em Abraão, não em Moisés) permanece.
  2. A expressão “todos, do menor ao maior” (v. 34) não se refere a uma totalidade absoluta, mas a todos os tipos de pessoa (Jr 5.4–5; 6.13; 8.10; 9.3–6; 16.6), possivelmente se referindo ao sacerdócio universal dos crentes em Jesus, em contraste com o sacerdócio levítico (Hb 8–10).
  3. Há um aspecto de “já e ainda não” comum nas profecias e alianças bíblicas, de modo que as bênçãos pactuais não se realizam de imediato, mas têm um aspecto de cumprimento futuro. Nós conhecemos a Deus, mas ainda de maneira parcial (1Co 13.12). Temos a lei no coração, mas ainda pecamos (1Jo 1.8). Somos perdoados, mas ainda precisamos pedir perdão (1Jo 1.9). Da mesma maneira, um dia teremos uma igreja totalmente pura, mas até que Cristo volte, ainda haverá crentes e descrentes na comunidade da aliança.

O SINAL DA ALIANÇA

Se a membresia da igreja na nova aliança é semelhante à de Israel no Antigo Testamento, incluindo os filhos na comunidade visível, então é natural que, assim como os israelitas recém-nascidos eram marcados com a circuncisão (Gn 17.9–12), os filhos de crentes na nova aliança sejam marcados com o batismo. Há um paralelo evidente entre a circuncisão e o batismo: ambos são sinais de participação no povo de Deus (Gn 17.10; Mt 28.19–20), ambos simbolizam a obra salvadora de Deus (Dt 30.6; Rm 4.11; At 2.38; 10.47; Rm 6.3–4; Gl 3.27; Cl 2.11–12; Tt 3.5) e ambos requerem uma vida de obediência e compromisso com Deus (Rm 2.25–27; 6.3–4; 1Co 7.19). A conversão do crente é chamada tanto de “circuncisão do coração” como de “batismo no Espírito Santo”. Embora os dois ritos não sejam idênticos em todos os aspectos, podemos dizer seguramente que o batismo ocupa o lugar que antes era ocupado pela circuncisão.

Credobatistas costumam argumentar que o substituto da circuncisão no Novo Testamento não é o batismo, e sim a regeneração (Rm 2.28–29; Gl 6.15; Fp 3.2–3). Mas o fato é que desde o Antigo Testamento a regeneração sempre foi apontada como significado da circuncisão (Dt 10.16; Jr 4.4; 9.25). Quando Paulo diz que a circuncisão física é insuficiente, ou que os verdadeiros filhos de Abraão são os da fé, ele não está falando de algo peculiar à nova aliança, está apenas reproduzindo o que já era ensinado pelos profetas. Não se trata de um contraste entre antigo e novo, e sim entre exterior e interior. Isso confirma que circuncisão e batismo são sinais externos de uma mesma realidade interna. Em ambos os casos, não há problema em aplicar um sinal de salvação pela fé aos filhinhos dos crentes — eles são parte da aliança e alvo das promessas de Deus, batizados na expectativa de que um dia responderão a essas promessas com fé.

EM RESUMO:

  1. A nova aliança é uma continuação da aliança abraâmica. (Gl 3.8, 13–14, 29; Ef 2.11–12; 3.6)
  2. A nova aliança, em continuidade com a aliança abraâmica, inclui os filhos em sua membresia. (Is 44.3; 54.13; At 2.38–39; 1Co 7.14; Ef 6.1–4)
  3. O sinal de entrada na aliança abraâmica (a circuncisão) e o sinal de entrada na nova aliança (o batismo) têm o mesmo significado fundamental. (Gn 17.10; Dt 30.6; Rm 4.11; Cl 2.11–12)
  4. Portanto, assim como os filhos dos membros da aliança abraâmica eram inseridos na comunidade visível do pacto e marcados com a circuncisão, os filhos dos membros da nova aliança são incluídos na comunidade visível do pacto e marcados com o batismo.

Written by

Cristão, designer e amante da teologia. Também escreve no Coruja Teológica (www.corujateologica.wordpress.com).

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